Terapias Alternativas na Medicina e na Nefrologia
Ao se optar por um tratamento não-convencional, muitos pacientes têm escolhido por tratamentos alternativos, alguns de tradição milenar, outros bem mais recentes. Muitas vezes atuam como complemento, apesar de muitas terapias não serem apoiadas por estudos clínicos rigorosos. Hoje em dia, ninguém se espanta com o uso de ervas e pelotas, de sanguessugas e de práticas de manipulação da coluna vertebral para a cura de diversos sintomas. A Medicina moderna se direciona para uma abordagem holística, parecendo esta, a melhor alternativa para o alívio dos males. A medicina chinesa, hoje bastante difundida no ocidente, faz uso de plantas (muitas vezes associadas a material animal) como remédios, popularizando a chamada fitoterapia. Não ignoramos o uso da coca (em analgésicos), da papoula (nos opióides), do inhame mexicano (nos contraceptivos orais). As ervas podem tratar doenças ou preveni-las, mas o seu uso indiscriminado tem sido combatido. Hoje, no Brasil, a erva de São João e a kava kava, usadas no tratamento de ansiedade e depressão leve, são vendidas apenas com receita médica, por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que pretende restringir o uso indiscriminado desses medicamentos, que podem oferecer riscos à saúde. Houve relatos de casos graves de hepatite, insuficiência hepática e cirrose hepática em pacientes da Alemanha e da Suíça que usaram o produto. Embora os estudos sobre os efeitos colaterais sejam ainda inconclusivos, a Anvisa decidiu adotar uma postura preventiva para evitar que as pessoas consumam esses medicamentos sem avaliação médica. Não se pode pensar que os produtos à base de plantas medicinais sejam inócuos. O Gingko (Gingko biloba) já foi apontado como tratamento para casos de demência e Alzheimer, pois parece ter efeitos antioxidantes e vasorreguladores, mas vários casos de distúrbios da coagulação são relatados por colegas cirurgiões e anestesistas. O ginseng é uma erva popular, utilizada há milênios na medicina chinesa; propaga-se ter propriedades de longevidade e de aumentar a qualidade de vida. O ácido aristolóquico, também presente em ervas chinesas, é descrito como causador de grave nefropatia e de tumores uroepiteliais. O palmito-serra hoje é usado para tratar a hipertrofia benigna da próstata e a echinacea tem sido utilizada para tratar ou prevenir infecções. A acupuntura já aparece nos livros de medicina ocidental desde o século XIX. A estimulação dos pontos de acupuntura pode ser feita por agulhas, compressão dos dedos, estimulação elétrica e com calor (com a moxa, um bastão feito com artemísia). Hoje é indicada inclusive como tratamento de depressão e para aliviar efeitos colaterais da quimioterapia. Com a adoção de agulhas descartáveis, a acupuntura hoje eliminou o risco de infecções e contaminações. A homeopatia, criada no século XIX pelo médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843), baseia-se na "doutrina dos semelhantes": usam-se na pessoa enferma substâncias de origem mineral vegetal ou animal que causam os mesmos sintomas em uma pessoa sadia. O Brasil, em 1979, foi o primeiro país do mundo a ter a homeopatia reconhecida como uma especialidade médica por uma entidade nacional, a Associação Médica Brasileira.
A Osteopatia foi criada em 1874, pelo médico americano Andrew Taylor Still, que fundamentou a técnica em três princípios: a causa de um mal pode estar longe do efeito (o corpo é um todo indivisível); o homem possui capacidade curativa própria; no corpo, a estrutura e a função estão reciprocamente interligadas. Atualmente, a OMS reconhece a Osteopatia como “medicina não-convencional”, e ela é reconhecida como profissão em diversos países, como Inglaterra, Bélgica, França e Nova Zelândia. Daniel David Palmer criou a quiroprática no século XIX, baseada na reposição de vértebras deslocadas e no alinhamento da coluna vertebral. Os riscos como fraturas e compressão da medula espinhal indicam que é necessário procurar profissional abalizado. Entre as massagens estão técnicas indianas chinesas e ocidentais, sendo notória a eficácia na redução de linfedemas. Já é bastante difundida a Shantala, a massagem milenar indiana para bebês; na Índia é tradição passada de mãe para filha. O ocidente a descobriu quando o médico francês Frédéric Leboyer, de passagem pela Índia, viu uma mulher - Shantala - massagear seu bebê. Entre as terapias não se podem deixar de mencionar o biofeedback, usado para reduzir ou eliminar sintomas de desordens orgânicas ou relacionadas ao estresse, para recuperar funções musculares e reduzir a dor resultante de um ferimento ou doença e a hipnose, que induz a um estado de transe profundo, aumentando a sugestionabilidade, sendo, para muitos, eficaz nas síndromes de dor e nas náuseas causadas pela quimioterapia. É muito comum a ingestão de suplementos alimentares, embora não se possa ignorar que o princípio da boa nutrição é a variedade balanceada de alimentos, devendo se equilibrar as calorias ingeridas e as queimadas, com a prática de atividades físicas. O uso de cálcio é bastante difundido para redução de perda óssea entre mulheres na menopausa e hoje a osteoartrite é tratada com sucesso com gliciosamina e condroitina. A linhaça é considerada alimento funcional, podendo diminuir o risco de algumas doenças; seu uso contínuo pode proporcionar aumento da defesa orgânica e redução do ritmo de envelhecimento celular. O uso do alho tem sido crescente em função de suas possíveis propriedades anti-oxidantes. Quanto a alimentos funcionais é preciso registrar uma preocupação maior, por parte da população e dos órgãos públicos de saúde, com a alimentação. Tem aumentado a expectativa de vida dos brasileiros, mas também é maior a incidência de doenças crônicas como diabetes, câncer, obesidade e hipertensão. Divulgam-se, assim, os benefícios de bons hábitos alimentares, estimulando-se o consumo de alimentos pobres em gorduras saturadas e ricos em fibras presentes, alardeando-se os benefícios das frutas, legumes, verduras e cereais integrais e de um estilo de vida saudável, com estímulo à prática de exercícios físicos regulares e à abolição do fumo e à moderação no álcool. A comunidade científica tem produzido pesquisas que comprovam a capacidade de certos alimentos de prevenir: são os alimentos funcionais. A Anvisa está atenta, estabelecendo normas para a apresentação de alimentos que alegam propriedades funcionais ou contêm substâncias bioativas e probióticos.
Assim, no Acontece Científico 26, escolhemos este tema para discussão. Apesar de haver um número crescente das chamadas terapias alternativas, a maioria dos trabalhos científicos está relacionada às plantas medicinais e considerando-se que os medicamentos sintéticos tiveram sua origem há pouco mais de 100 anos, verifica-se que a arte de curar está intimamente ligada ao uso dessas plantas encontradas na flora de todo o mundo. Neste contexto, nosso país, em função de suas vastas florestas tem importância capital e o mundo olha para a Amazônia de uma forma preocupante e nossos governantes têm o dever de preservar nossas autonomia e propriedade.
Aproveito este editorial para transcrever o texto, achando na Internet e escrito em 14/8/07 por Paulo Roberto Moraes, Prof. da PUC de São Paulo.
Florestas Saqueadas
Com uma variedade de espécies de plantas e animais que estarrece o mundo, o Brasil sofre com um crime dos novos tempos: a biopirataria.
A questão ambiental vem ganhando importância no mundo inteiro, não somente pela preocupação com a qualidade da vida humana como também pelas potencialidades econômicas dos recursos naturais de cada país. Nos últimos anos, com os avanços da engenharia genética e da biotecnologia, o preço da vida silvestre tornou-se incalculável para as grandes corporações multinacionais, que buscam em determinados ambientes as matrizes para muitos de seus produtos, as quais, depois de alteradas geneticamente, são comercializadas por valores elevadíssimos.
Entre essas regiões, as florestas tropicais assumem especial relevância na medida em que contêm a maior biodiversidade do planeta e possuem muitas áreas quase desconhecidas. Nesse quadro, nosso país ganha destaque especial, principalmente por abrigar a impressionante Floresta Amazônica. O número inigualável de espécies de plantas, peixes, anfíbios, pássaros, primatas e insetos, muitos deles ainda não descritos nem estudados pela ciência, inclui o Brasil num seleto grupo de países notórios por sua megadiversidade biológica. Detentor de 23% da biodiversidade do planeta, de acordo com cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil conta com um patrimônio genético estimado em 2 trilhões de dólares.
Em razão dessa imensa riqueza, nosso país e outras nações privilegiadas em biodiversidade passaram a ser alvo da ação da biopirataria, praticada principalmente por grandes conglomerados transnacionais. Eles levam, sem autorização, elementos da fauna e da flora nativas para o estrangeiro, com fins industriais ou medicinais, sem nenhum pagamento ao país produtor ou à população local, que muitas vezes já conhece as propriedades curativas de espécies subtraídas. Assim, usado pela primeira vez em 1993, o termo biopirataria é mais do que contrabando. É a apropriação e monopolização de conhecimentos mais tarde patenteados em âmbito internacional, sem que as comunidades locais tenham direito à participação financeira com essa exploração.
Riquezas roubadas
A lista dos países alvo da biopirataria é grande. Madagascar, Quênia, Senegal, Camarões, África do Sul, Zaire, Brasil, Guiana, Peru, Argentina, Venezuela, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Rússia, Tanzânia, Indonésia, Índia, Vietnã, Malásia e China. Calcula-se que esse comércio ilegal movimente cerca de 10 bilhões de dólares por ano. O Brasil responde por 10% desse tráfico, que inclui animais e sementes. Segundo o Parlamento Latino-Americano, mais de 100 empresas fazem bioprospecção ou biopirataria no Brasil. Calcula-se que cerca de 40% dos remédios sejam oriundos de fontes naturais, sendo 30% de origem vegetal e 10% de origem animal e microorganismos. Grande parte do princípio ativo dos hipertensivos é retirada do veneno de serpentes brasileiras, como, por exemplo, a jararaca.
O Brasil possui um imenso potencial genético a ser explorado. Estima-se que seu patrimônio vegetal represente cerca de 16,5 bilhões de genes. Sendo tão rico em substâncias biologicamente ativas, tornou-se, comprovadamente, alvo de biopiratas. As denúncias de casos de pirataria genética são freqüentes. Elas envolvem instituições oficiais de ensino e pesquisa, cientistas e laboratórios estrangeiros que saem daqui levando riquezas biológicas, para posteriormente registrarem patentes e gozar de vantagens econômicas obtidas à custa de produtos gerados com nossas plantas e animais. Cerca de 70% da biopirataria praticada no Brasil é feita por instituições filantrópicas, que entram em nosso território alegando a intenção de promover o atendimento a populações carentes e remetem clandestinamente material genético, in natura e em grandes quantidades, principalmente para Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Suíça e Japão. O restante da retirada irregular é praticado por instituições científicas legalmente instaladas. Apesar de o volume exportado ser menor, o dano por elas causado é maior, pois a alta tecnologia que aplicam nas pesquisas realizadas aqui mesmo permite o envio, para suas sedes, de material já sintetizado.
Retirar material biológico clandestinamente de um país não exige muita criatividade. Existem diversas maneiras de esconder fragmentos de tecidos, culturas de microorganismos ou minúsculas sementes sem a necessidade de grandes aparatos. Mas geralmente a ação mais flagrada é o tráfico de animais silvestres.
P align="justify">Na Eco-92, a Convenção da Biodiversidade deu origem ao documento Estratégia Global para a Biodiversidade. O combate à biopirataria prevê o pagamento de royalties pelas empresas que fizerem pesquisas ou explorarem a fauna e/ou a flora num país estrangeiro e a transferência de tecnologia e informações para o país detentor da "matéria-prima" biológica. Esses dois pontos vão contra os interesses dos grandes conglomerados farmacêuticos, que se opõem à assinatura de qualquer acordo ou tratado nesses termos. Os países ricos, liderados pelos EUA, alegam que os seus gastos com pesquisas nem sempre se transformam em produtos rentáveis. Em outras palavras, afirmam que investem muito na procura de novas substâncias e que apenas uma ou outra resulta em fonte de lucro.
Proteger legalmente o patrimônio biológico em países pobres é uma batalha sem fim. Carentes de tecnologia, mas detentores de cobiçada fauna e flora, como essas nações podem pressionar as megacorporações de países ricos e desenvolvidos?
Mais um motivo para que o uso sustentável da biodiversidade seja uma das maiores preocupações da sociedade moderna, que, adquirindo maior consciência da importância estratégica da preservação da biodiversidade, devem exigir dos governos posturas coerentes para a proteção ambiental e para a exploração dessa riqueza.
Assim, acrescentamos neste Acontece, o gráfico abaixo que mostra o número crescente de trabalhos sobre fitoterápicos nos últimos anos:
Separamos os artigos de 251 a 260 abordando diversas formas de terapias alternativas com implicações nefrológicas. Abaixo está um resumo do artigo indiano publicado no Seminars Nephrology (2003). Os autores fazem uma excelente síntese do problema.
Nephropathy associated with animal, plant, and chemical toxins in the tropics.
Jha V, Chugh KS. Semin Nephrol. 2003 Jan;23(1):49-65.
Department of Nephrology, Postgraduate Institute of Medical Education and Research, Chandigarh, India.
Widespread human exposure to a variety of drugs, chemicals, and biologic products and recent awareness of their toxic manifestations has led to the recognition of toxic nephropathy as an important segment of renal disease in the tropical countries. Tropical nephrotoxins are distinctly different from those seen in the rest of the world and are derived from local fauna and flora or plant and chemical sources. The spectrum of exposure varies from country to country and even from community to community, depending on variations in the distribution of local plants and animal species and prevalent social practices. Acute renal failure (ARF), either alone or in association with liver failure, neurologic abnormalities, metabolic acidosis, disseminated intravascular coagulation, or pulmonary infections is the most common form of presentation. Traditional medicines prescribed by witch doctors (traditional healers) constitute a special class of nephrotoxins among several communities in Africa and Asia. The prevalence of nephropathy caused by traditional medicines is directly related to a combination of ignorance, poverty, lack of medical facilities, lax legislation, and widespread belief in indigenous systems of medicine in rural areas. These medicines are a mix of herbs and unknown chemicals administered orally or as enemas. Clustering of cases after exposure to a particular agent suggests the possibility of a toxic insult. Common animal nephrotoxins are venoms of viper snakes, sea snakes, stinging insects, and raw gallbladder and bile of carp and sheep. Botanical nephrotoxins are encountered both in common edible plants (djenkol beans, mushrooms) and medicinal herbs (impila, cat's claw). Mistaken identification of medicinal herbs by untrained workers and even deliberate trials of toxic substitutes derived from plants frequently lead to renal disease, the most commonly reported being the Chinese herbal nephropathy. Nephrotoxicity caused by chemicals can be secondary to accidental occupational exposure in industrial work places (eg, chromic acid), or after suicidal or homicidal use (eg, copper sulphate, ethylene dibromide, ethylene glycol). Late presentation and multiorgan dysfunction are associated with a high mortality. A high index of suspicion, careful history taking, and an awareness of local practices are essential for proper diagnosis and management of toxic nephropathies in the tropics. Copyright 2003, Elsevier Science (USA).
Em tempo, o artigo 260 que fecha esta edição trata da medicina alternativa na fase 5 da doença renal. A foto anexa é do Sergio Prezzi, Serginho para os amigos.
Ele é um dos grandes responsáveis pela disseminação dos artigos, (legalmente obtidos na Internet) para nossa crescente comunidade Nefrológica, cada vez mais ávida pelo conhecimento.
Tenho certeza que meus agradecimentos ao Serginho serão compartilhados por uma legião de leitores.
Como qualquer forma de terapia alternativa, deve ser acompanhada pelo bom humor e pelo sorriso, e aqui lembramos de Patch Adams e dos nossos Doutores da Alegria, com a ajuda da Silvia Abensur, lhes oferecemos em anexo uma boa música: O Concerto de Brademburgo nº 3 de Johann Sebastian Bach.
O Concerto de Bradenburgo nº 3 de Johann Sebastian Bach
Edison Souza
edisonmd@centroin.com.br
Editor do Acontece Científico
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