Entrevista – Dr Jenner Cruz

postado 17/12/2019

Prof. Jenner Cruz participou deste bate-papo, no dia 12 de fevereiro de 2006. Durante 90 minutos contou um pouco da sua vida e do seu modo de pensar.

Sebastião: Prof. Jenner conte um pouquinho da sua história. Onde o senhor nasceu?

Prof. Jenner: Nasci em São Paulo mesmo, mas a minha família morava em Mogi das Cruzes, de forma que eu fiz até o ginásio em Mogi das Cruzes, depois eu vim estudar em São Paulo. Naquele tempo não tinha colégio em Mogi, então fiz o colégio no Presidente Roosevelt, na rua José Joaquim, que era um colégio estadual aqui em São Paulo e, de lá, entrei direto na Faculdade de Medicina da USP, em1948, onde me formei em 1953. Está fazendo quase 53 anos.

Sebastião: O senhor nasceu quando?

Prof. Jenner: 29 de maio de 1929. Aqui em São Paulo, porque lá em Mogi não tinha maternidade, então eu vim pra nascer aqui em São Paulo.

Sebastião: Foi criado em Mogi?

Prof. Jenner: Criado em Mogi

Sebastião: Até que idade o senhor ficou em Mogi?

Prof. Jenner: Até o colégio, até 14 anos? Quando acabei o ginásio tinha 14 anos, acho.

Sebastião: Aí o senhor veio sozinho pra São Paulo?

Prof. Jenner: Não, eu vim morar numa pensão onde morava um tio também que era estudante de Medicina.

Sebastião: Aí o senhor veio pra São Paulo morar na mesma pensão que ele?

Prof. Jenner: É. Foi.

Sebastião: Qual era a profissão dos seus pais?

Prof. Jenner: A minha mãe foi professora. Ela formou-se como professora mas só fez umas duas ou três substituições quando era jovenzinha.  E o meu pai era médico. Milton Cruz e minha mãe Maria de Lourdes Borges Vieira Cruz

Sebastião: São vivos?

Prof. Jenner: Não, já faleceram.

Sebastião: E o senhor tem quantos irmãos?

Prof. Jenner: Eu tenho 2 irmãos, uma irmã e um irmão; a irmã mais velha e o irmão é bem mais moço. Eu sou o do meio.

Sebastião: E quando o senhor veio pra São Paulo, o senhor veio sozinho?

Prof. Jenner: É. Vim sozinho.

Sebastião: E São Paulo na época já era o perigo que é hoje ou não?

Prof. Jenner: Não, não, não, não tinha perigo nenhum.

Sebastião: E o senhor ficou em que pensão, o senhor lembra isso direitinho?

Prof. Jenner: A primeira pensão que eu fiquei foi na Av. Angélica, n° 1039.

Sebastião: E o que é hoje nesse local? O senhor sabe?

Prof. Jenner: Agora é um prédio de apartamentos.

Sebastião: Vários estudantes?

Prof. Jenner: É, com várias pessoas, tinha alguns estudantes também do Mackenzie, estavam lá. Tinha estudante da faculdade de Direito, cursando a Faculdade de Direito. Tinha também pessoas que não eram estudantes. Tinha bastante hóspedes, todos hóspedes.

Sebastião: Professor e nessa época o senhor já queria fazer Medicina?

Prof. Jenner: Já, já, eu sempre, nunca tive outra opção.

Sebastião: Mas era imposição do pai ?

Prof. Jenner: Não, não, não. A minha irmã quis ser médica, o meu pai não deixou. Agora, o meu irmão também é médico.

Sebastião: Uma irmã que não foi médica…e ela optou por…

Prof. Jenner: Ela formou-se em professora de inglês, inglês e alemão, mas lecionou só inglês, ela lecionou até se aposentar em São Paulo.

Sebastião: O senhor acompanhou de perto essa posição do seu pai? Foi uma época dura?

Prof. Jenner: Não, não, foi uma coisa muito pacífica, o meu pai muito autoritário e nós éramos obedientes. (risos)

Sebastião: Ah é?

Prof. Jenner: Eu tenho a impressão que papai, sendo médico, achava que a Medicina não era um bom para as mulheres. Na turma dele não tinha mulheres, não se vê mulher, naquele tempo tinham poucas mulheres, antigamente né? Ele era formado no Rio de Janeiro, pela praia Vermelha.

Sebastião: E ele foi terminantemente contra?

Prof. Jenner: Não. Ele foi contra, não terminantemente contra.

Sebastião: Mas com vocês, homens, não teve problema nenhum?

Prof. Jenner: Não, não tive problema nenhum. Éramos incentivados

Sebastião: A vida na pensão devia ser uma mordomia…afinal, filho de médico…..

Prof. Jenner: Não, nada disso. A gente comia comida de pensão né? Comida de pensão!, Estudava e voltava pra pensão, quer dizer, à noite ia pro futebol às vezes, os colegas da pensão iam, nós morávamos perto do Pacaembu, Av Angélica, pertinho do Pacaembu, então muitas vezes nós íamos, ou íamos comer doce na esquina ou íamos pro futebol (riso) quando havia jogo.


Sebastião: O senhor jogava futebol?

Prof. Jenner: Não, não. Eu só joguei só umas 4 ou 5 vezes na vida (riso)

Sebastião: O senhor gostava mesmo era de estudar

Prof. Jenner: Gostava de estudar e de jogar futebol mas não era bom jogador (riso).

Sebastião: Do colégio entrou direto pra faculdade

Prof. Jenner: É.

Sebastião: Nessa época não tinha cursinho, essas coisas né?

Prof. Jenner: Tinha. Eu fiz um cursinho chamado Brigadeiro, aqui em São Paulo

Sebastião: E aí entrou na faculdade. Prestou em outros lugares?

Prof. Jenner: Não, não, só na USP

Sebastião: E já era concorrido?

Prof. Jennner: Já, já, já.

Sebastião: Teve bastante candidato?

Prof. Jenner: Lógico, um colega meu que, ele foi meu colega no colégio, no ginásio em Mogi, foi o primeiro aluno, 1° lugar, a Helga foi a 2ª e eu fui o quadragésimo! Caiu uma questão de química, uma questão de biologia que eu não sabia, não havia estudado e então tive nota baixa nessas duas matérias, mas de física tirei a maior nota, tirei 9:75. Aprova era escrita e quem corrigia era um professor da faculdade.

Sebastião: Então passava primeiro pela fase…

Prof. Jenner: Escrita. Daí então uma turma já era jogada fora e a outra parte fazia a prova oral.

Sebastião: Uma curiosidade, o senhor lembra o que perguntaram para senhor nessa prova oral?

Prof. Jenner: O que eu não soube foi hormônios vegetais, que não tinha tido no curso e nem no colégio. E a outra foi aluminotermia, que eu também não tinha tido nos dois lugares

Sebastião: O que é isso?

Prof. Jenner: (risos) Eu não sei. Outro dia o meu filho falou o que era mas eu esqueci (risos)

Sebastião: E na prova oral o que que se perguntava nessa época?

Prof. Jenner: Não, era um ponto sorteado

Sebastião: Não perguntavam se gostava mesmo de medicina? Essas coisas que psicólogo adora?

Prof. Jenner: Não, não, não. Só técnica, só pergunta técnica!

Sebastião: Repetiu algum ano durante o curso de medicina?

Prof. Jenner: Não, eu só tive duas provas finais, que eu não passei direto, duas orais só. Eu fiz uma oral de Anatomia Topográfica e fiz oral de Parasitologia, todas outras cadeiras passei com nota acima de 7.

Sebastião: Sem precisar da oral

Prof. Jenner: É, sem precisar da oral

Sebastião: Teve algum professor que o marcou na época? Aquele que o senhor olhou e disse: esse aí é um bom exemplo…

Prof. Jenner: Não, sinceramente não.

Sebastião: O senhor trabalhava com quem na época de estudante?

Prof. Jenner: Eu trabalhei primeiro com o Dr. Octávio Gaspar Tizzi que era um pneumologista e depois com o Dr. Emílio Mattar e o Dr. Sylvio Soares Almeida. Estes estavam criando um grupo, naquela época chamava grupo de Moléstias Renais e Hipertensivas e me convidaram para permanecer. Então já como estudante eu comecei a participar desse grupo. No ambulatório desse grupo

Sebastião: O que um estudante fazia num ambulatório, num grupo desses?

Prof. Jenner: Ah! Fazia quase tudo.

Sebastião: Por exemplo?

Prof. Jenner: Por exemplo, eram os estudantes que passavam visitas de manhã cedo, antes de começar a aula, a gente ia, examinava o doente, escrevia a prescrição etc. Quando era coisa de rotina a gente já prescrevia, só não assinava, quem assinava em geral era o acima, tinha um acima da gente.

Sebastião: Que era um residente

Prof. Jenner: É. Estes mesmos professores logo depois fundaram o primeiro ambulatório de hipertensão e de doenças renais e eu também comecei a fazer parte desse ambulatório.

Sebastião: Mas como estudante?

Prof. Jenner: É, primeiro como estudante, depois no internato. Eu ia também no ambulatório e logo o Dr. Emílio parou de fazer ambulatório, então ficou só o Dr. Sylvio, eu e a Helga e depois também ele parou. Ficaram eu e a Helga, depois vieram outros. Desde 1950 frequento o Hospital das Clínicas.

Sebastião: E quando o senhor terminou o curso de medicina foi imediatamente contratado?

Prof. Jenner: É. Fui contratado como médico do Hospital das Clínicas, eu e minha esposa fomos contratados como médicos do Hospital das Clínicas. Quer dizer que, então nós permanecemos no serviço.

Sebastião: O senhor acha que fez Nefrologia por causa desse convite, nessa época, como estudante?

Prof. Jenner: Exato.

Sebastião: Não é um tipo de especialização precoce, chamar o aluno da graduação para frequentar um grupo desses?

Prof. Jenner: Não porque, naquele tempo, não havia bem especialização. O Prof. Cintra passava visita geral, então a gente passava visita em todos os grupos, os nossos leitos por exemplo, a maior parte eram juntos com a Alergia e Imunologia, então nós tínhamos leitos, no mesmo quarto tinha de nefro e de alergia e depois também a gente passava visita junto com o Prof. Cintra no leito de endócrino, de hemato, de gastro e etc

Sebastião: Era uma clínica geral

Prof. Jenner: É. Era a Primeira Clínica Médica? A especialidade Nefrologia foi criada em 1960.
Quando foi criado a Sociedade Brasileira de Nefrologia, só daí que ela virou a Nefrologia como conhecemos hoje. Até 1959 ela era Grupo de Moléstias Renais e Hipertensivas.

Sebastião: Eu não sabia. E aí a criação da Sociedade Brasileira de Nefrologia está muito ligada à disciplina do próprio Hospital das Clínicas, é isso?

Prof. Jenner: Não é bem assim, quer dizer, o termo nefrologia é um termo que existe na língua portuguesa há muito tempo, eu sei porque tenho um dicionário de 1920 e o termo nefrologia já existia, mas não se usava. Só passamos usar e conhecer o termo depois da criação da sociedade?

Sebastião: Certo. Isso foi em 60?

Prof. Jenner: Em 1960. O Dr. Israel que não pertencia a esse grupo – ele pertencia ao Prof. Décourt – foi estudar na França e estudou junto com o Prof. Jean Hambúrguer e o Prof. Richet no Hospital Necker, em Paris, e quando ele voltou, voltou com a ideia de criar a Sociedade Brasileira de Nefrologia, o que ocorreu em agosto de 1960, antes de qualquer sociedade

Sebastião: Fomos a primeira?

Prof. Jenner: É, pelo menos que eu saiba, acho que a francesa já existia, nós fomos a segunda eu acho.

Sebastião: Antes da americana?

Prof. Jenner: Lógico, a americana foi muito depois, a francesa já existia, 2 meses depois, em outubro, eles criaram na França a Sociedade Internacional, de Nefrologia, então a sede era na França, o tesoureiro era Prof. Funck Brentano, que foi tesoureiro por muitos anos e já havia a revista Nephron, editada na Suíça pelo Dr. Karger.

Sebastião: Tem uma editora com o mesmo nome…

Prof. Jenner: É, ele tem uma editora na Suíça. Somente anos depois foi criada a Sociedade Americana, e 12 anos depois, eles passaram a sede para os Estados Unidos, criando então o Kidney Internacional, quando o Nephron deixou de ser revista oficial da sociedade internacional.

Sebastião: o senhor participou na criação da SBN?

Prof. Jenner: Não, a gente era muito pequeno ainda? O Dr. Israel era subordinado ao Prof. Décourt, então a sociedade realmente foi criada graças aos esforços do Prof. Israel, do Prof. Décourt e do Prof. Magaldi

Sebastião: O Décourt era cardiologista

Prof. Jenner: É. E realmente, nessa ocasião ele também fundou um grupo de nefrologia, só que o grupo dele, apesar de ser muito importante, inclusive internacionalmente, graças ao Prof. Israel naquela ocasião, o grupo dele não era oficial, o grupo oficial era o nosso

Sebastião: Certo.

Prof. Jenner: Então nós dávamos o curso gradação da Faculdade e eles criaram depois um grupo também de nefrologia mas que não era oficial da faculdade. Então eles ficaram com o grupo de coração, de pulmão e não sei mais, não me lembro agora, nós ficamos com a endocrinologia, ficamos com a alergia, ficamos com a nefro e ficamos com a gastroenterologia. Em 1970 os grupos se uniram

Sebastião: Mas a Sociedade foi criada por qual grupo, basicamente?

Prof. Jenner: A idéia foi do Israel

Sebastião: Que pertencia ao Décourt.

Prof. Jenner: É, e ele usou a influência do Décourt e do Magaldi para arregimentar no Brasil todo pessoas interessadas, que aliás muitos não eram nefrologistas, então nós temos os sócios, a sociedade foi fundada numa reunião no anfiteatro do Prof. Décourt. Foram convidados algumas pessoas, acho que uns 40 e poucos se não me engano, assinamos uma ata, mas depois eles também convidaram outras pessoas, que não estiveram presentes, mas assinaram depois, de modo que somos 107 sócios fundadores, se não me engano, mas só uns 40 e poucos estavam presentes, além logicamente dos franceses que estavam lá, como o Prof. Hambúrguer.

Sebastião: Ele veio especialmente para criação da Sociedade Brasileira de Nefrologia?

Prof. Jenner: É. O Hamburger, o Ducrot e uma moça que não me lembro o nome

Sebastião: Puxa! Não era Reneé Habib não?

Prof. Jenner: Não, não, não, Reneé Habib vem depois. É uma que não ficou muito famosa, esqueci o nome dela.

Sebastião: o senhor foi um dos que assinaram essa ata?

Prof. Jenner: É, eu e a Helga assinamos.

Sebastião: Em 60 o senhor já estava no HC…

Prof. Jenner: Já estava já, eu e a Helga assinamos essa ata. Emílio Mattar também assinou. O Prof. Mattar era endocrinologista e nefrologista, depois virou só endocrinologista e na endocrinologia somente diabetes, então ele ficou ligado a Sociedade de Diabetes.

Sebastião: Depois de criada a sociedade os dois grupos de nefrologia continuaram divididos?

Prof. Jenner: Não, não, não, ficou uma coisa só.

Sebastião: E como é que foi isso?

Prof. Jenner: E como o Prof. Sylvio Soares de Almeida era uma pessoa muito, não sei bem o termo, muito… competente, sabia tremendamente língua, música, tinha uma educação muito esmerada, sabia muito português, mas ele era muito medroso para tomar atitudes. Ele fez tese ficou com medo de defendê-la, mas seu trabalho conquistou o prêmio Alvarenga da Academia Nacional de Medicina. Nós ganhamos esse prêmio juntos. Era uma tese brilhante que ele podia ter defendido e ter virado um livre-docente ou doutor, mas ele nunca virou. Então quando se reuniram, em 1970, como o Prof. Magaldi era livre-docente e o Sylvio não tinha nem título de doutor nem de mestre, o Prof. Magaldi ficou sendo o chefe. O Dr. Sylvio ficou sendo o ajudante mas poucos anos após os dois morreram, o Dr. Magaldi morreu menos de 1 ano depois de assumir a cadeira de Professor Titular de Nefrologia, de infarto e o Dr. Sylvio também morreu pouco antes de infarto também.

Sebastião: Depois de criada a Sociedade

Prof. Jenner: É. E daí houve uma certa ciumeira porque, não sei se devo contar (riso)

Sebastião: Claro que deve!

Prof. Jenner: Não devo contar não porque são coisas muito…, vou contar só partes do que houve. Então o Dr. Emílio Mattar que era meio brigado com o Marcello, nomeou o Carlos Villela de Faria, que era o mais velho da turma, para ser o professor enquanto não houvesse concurso.

Sebastião: Correto

Prof. Jenner: Mas o Marcelo fez pé firme, conseguindo ficar no lugar do Carlos Villela de Faria.

Sebastião: E isso foi um ti-ti-ti danado na época?

Prof. Jenner: É. E depois o Marcelo fez o concurso, disputando com Antonino dos Santos Rocha e venceu. Venceu mas foi um vencimento também com uma certa discussão cerrada. Logo depois eles deram para o Prof. Rocha a chefia da disciplina de Clínica Médica.

Sebastião: Uma forma de compensação?

Prof. Jenner: É. Então ele ficou sendo o chefe da Clínica Médica mas logo depois ele veio a falecer.

Sebastião: Professor eu acho que o senhor teve uma posição privilegiada nesse tempo todo, observando os acontecimentos. A Med On line, vagarosamente, está montando um painel, uma grande história da nefrologia brasileira. Temos muitos alunos, jovens que muitas vezes não conhecem a história dos bastidores. Acho que a visão do senhor é importantíssima.

Prof. Jenner: Você sabe que o João Egídio e outros escreveram um livro há uns anos, sobre a história da nefrologia

Sebastião. Lembro, lembro, lembro sim.

Prof. Jenner: Então existem partes do que eu falo aqui que está escrito nesse livro.

Sebastião: Professor e a Escola Paulista de Medicina, nessa história, na hora de criar a sociedade de nefrologia, ela teve alguma participação?

Prof. Jenner: Não. Nem sei se o Oswaldo Ramos já era nefrologia nesta época. Ele foi nefrologista depois. O Prof. Emil Sabaga, por exemplo, estava nos Estados Unidos, ele também não é sócio-fundador da Sociedade.

Sebastião: O Oswaldo Ramos e quem mais que o senhor disse?

Prof. Jenner: Horácio Ajzen. Tenho impressão que o Oswaldo Ramos virou nefrologista depois. O Horácio Ajzen inclusive é da turma de 57 se não me engano, quer dizer tinha poucos anos de formado, na época.

Sebastião: Então eu posso afirmar que a criação da Sociedade Brasileira de Nefrologia foi uma ideia da USP?

Prof. Jenner: Da USP e do Prof. Israel, quer dizer, foi ele o responsável por nós termos a Sociedade Brasileira, como a segunda em todo mundo

Sebastião: O Prof Israel não estava ligado a USP?

Prof. Jenner: Estava, ele é que nem eu, ele é médico do Hospital das Clínicas.

Sebastião: Ah certo

Prof. Jenner: Nós não somos médicos da USP, nem eu, nem ele somos médicos da USP. Nós somos médicos do Hospital das Clínicas

Sebastião: Então a Paulista não teve participação nessa fundação

Prof. Jenner: Eu não me lembro bem mas o Dr. Magid Iunes, se não me engano, eu não sei se ele foi fundador, pelo menos ele era o mais importante daquela ocasião na época da fundação da SBN. Ele era da Paulista. Mas não me lembro se ele foi sócio-fundador, não me lembro.

Sebastião: Como é que o senhor vê hoje essas sub-divisões dentro da nefrologia como por exemplo a nefrologia intervencionista?

Prof. Jenner: Eu acho que a Medicina está crescendo de uma maneira imensa, é difícil você acompanhar tudo que existe. A gente acompanhou porque é professor, continuamos a atender doentes. A nefrologia é uma disciplina muito ampla, nós quando olhamos um doente, nós ficamos sabendo tudo que o paciente tem, não é só a parte nefrológica, tudo está interligado, a nossa visão é clínica, totalmente clínica. Existe na nossa disciplina atual, na atual disciplina, como esse professor Roberto Zats era um ratologista só que agora ele está procurando entrar mais na clínica, ele frequenta o Hospital das Clínicas, ele inclusive dá aula pros alunos pessoalmente, inclusive aula de grupinhos pequenininhos, ele faz questão de dar aula para ampliar o conhecimento clínico dele. Mas nós temos outras pessoas que não fazem estudos só em animais. Nós temos o grupo de hipertensão com o Dr. Praxedes que viria aqui, é o chefe do Grupo de Hipertensão, tem também o Dr. Décio Mion que teria um Ambulatório de Hipertensão, então teriam dois mas na realidade o chefe dos pacientes internados, na disciplina, é o Praxedes. Na Insuficiência Renal Aguda quem dirige é o Prof. Luís Yu, então nós temos reuniões separadas. O Rui e a Vitória ficaram com as glomerulopatias.

Sebastião: E o senhor participa dessas reuniões?

Prof. Jenner: Nas terças participo dessas reuniões

Sebastião: Na terça feira…

Prof. Jenner: Terça-feira é a reunião de hipertensão, depois tem a reunião das glomerulopatias e depois tem a reunião geral

Sebastião: Tudo na terça-feira?

Prof. Jenner: É. Então nessas três reuniões que ocorrem nas manhãs de terça-feira estou presente. Agora as reuniões de Insuficiência Renal Aguda, por exemplo, que são nas quintas-feiras eu não estou presente, não estou presente nas reuniões de transplante etc.

Sebastião: Professor o senhor fez residência e o senhor esteve fora do país?

Prof. Jenner: Não, isso foi uma das grandes tristezas que eu sinto…Quer dizer, fui convidado pelo Prof. Cintra, eu e a Helga fomos convidados para irmos pros Estados Unidos mas não fomos

Sebastião: Qual a razão?

Prof. Jenner: A razão, uma delas é que eu tinha um problema muito sério de vista, quando eu tinha 5 anos de idade eu tinha uma tia que faleceu de tuberculose e nessa ocasião eu tive minha primeira uveíte, depois quando estava na faculdade no 4° ano eu tive outra uveíte gigantesca que eu perdi o olho direito. E depois eu tive uma série de uveítes, dessa ocasião até 1970 eu tive um colosso de uveítes quase todo tempo tendo uveítes… então um dos motivos foi esse…

Sebastião: Qual etiologia dessa uveíte?

Prof. Jenner: Foi tuberculose

Sebastião: Aí tratou, acabou!

Prof. Jenner: Eu sabia que estava com tuberculose nos olhos, mas não conseguia sarar. Eu sarava daquele surto depois de alguns meses voltava o surto, sarava voltava e sarava graças a remédios contra tuberculose, associado a prednisona em altas doses.

Sebastião: O senhor ficou cego de um olho quando?

Prof. Jenner: Quando tinha 21 anos de idade, quando estava na faculdade

Sebastião: O senhor já estava na faculdade quando não enxergava mais desse olho

Prof. Jenner: Não, não, eu tive uma uveíte grave, que evoluiu pra cegueira desse olho

Sebastião: O olho direito

Prof. Jenner: Olho direito. E como conseqüência das uveítes do olho esquerdo, eu tenho uma “teia de aranha” porque as uveítes formaram uma cicatriz dentro do humor vítreo, em forma de uma teia de aranha. Essa teia de aranha normalmente fica parada, mas de vez em quando, ela se solta e eu vejo aquela teia descer e subir. Eu também perdi grande parte do campo visual esquerdo, eu tenho só um terço do campo visual, mas a visão está perfeita, não me afeta em nada, mas eu demoro para ver um objeto que vem pela direita, pois parte do campo visual está comido. Então esse foi o motivo meu para não ir para os Estados Unidos. O motivo da Helga foi que nós estávamos com empregos, nós já éramos empregados do Hospital das Clínicas e tínhamos outros empregos também, e ela estava com medo de ir para os EUA e depois perder os empregos. Ela tinha medo de ficar pobre. Ela não quis ir por causa disso. Então foi uma coisa que eu senti não ter ido pros Estados Unidos. A grande vantagem seria a de aprender inglês. Até hoje eu tenho dificuldades em ouvir inglês. Eu escrevo, eu leio mas tenho dificuldade em ouvir. Televisão por exemplo, dificilmente eu escuto, sei ler a legenda, não escuto o que estão falando.

Sebastião: O senhor acha que não ter ido para os Estados Unidos prejudicou o senhor?

Prof. Jenner: Não, não, não, não, não, naquela época não, é porque, prejudicou no seguinte, você sabe, eu edito livros. Eu sou sócio da Sociedade Internacional de Nefrologia desde o começo.

Sebastião: Certo

Prof. Jenner: Tinha um francês, Funck Brentano, logo no inicio da Sociedade Internacional de Nefrologia, que correspondia comigo. Eu mandava carta pra ele em francês (porque eu tivera um muito bom professor de francês no colégio) e depois eu comecei a mandar carta em inglês, pois os responsáveis pela sociedade internacional agora falam inglês, agora é um belga, não sei se o senhor sabe?

Sebastião: Sei.

Prof. Jenner: Pois é, e para solicitar o Kidney International que não chegou, tenho que escrever em inglês. Aprendi bem inglês, o suficiente pra escrever essas pequenas cartas sem dificuldade. Quando a gente vai assistir, por exemplo, um curso de nefrologia nos Estados Unidos, eu sento na sala e entendo só a metade, tem muita parte que eu não entendo, então é esse inglês que eu sinto falta.

Sebastião: Correto

Prof. Jenner: Se eu soubesse mais inglês (NR: troca das fitas de gravação)

Sebastião: O senhor chegou a fazer pós graduação? Mestrado, doutorado?

Prof. Jenner: Por causa da vista, eu demorei a fazer mestrado e doutorado, porque todas as vezes que começava a fazer uma tese a minha vista piorava. Em 1970 quando apareceu uma droga nova chamada cicloserina, muita gente não conheceu essa droga, durou uns 2 anos só; e essa droga nova pra tuberculose foi o que me curou. Quer dizer, eu tomei essa droga e nunca mais tive uveíte. É uma droga muito tóxica e por causa disso ela foi abandonada. Eu não senti nada, tomei a droga sem sentir nada e sarei. Para mim foi um espetáculo. Em 1972 o Prof. Cobra me convidou para ser professor em Mogi. Ele precisava de um nefrologista para assumir a cadeira de Nefrologia. Por causa disso eu fiz o doutorado, como na USP não tinha o doutoramento em nefrologia naquela ocasião, fui fazer com o Prof. Oswaldo Ramos.

Sebastião: Ah é?

Prof. Jenner: Então eu fiz doutorado em 76, 77, só que daí a Faculdade de Medicina abriu uma livre-docência direta, então eu peguei a tese de doutorado que eu estava fazendo com o Osvaldo e…

Sebastião: Transformou em livre-docência

Prof. Jenner: É. Transformei em livre-docência direto, então virei livre-docente direto pela Faculdade de Mogi das Cruzes.

Sebastião: Ah! Entendi.

Prof. Jenner: E a banca foi formada pelo Oswaldo Ramos, o Horácio Ajzen, o Magaldi, o Castor Cobra e um professor de Anatomia de lá que eu esqueci o nome agora, foi a banca examinadora.

Sebastião: Então o senhor está lá em Mogi desde 1971?

Prof. Jenner: 72. Mas em 2001, eles nos mandaram embora, estão todos aposentados, todos idosos foram mandados embora.

Sebastião: Então o senhor não está mais em Mogi?

Prof. Jenner: Estou em Mogi mas não na Faculdade.

Sebastião: O senhor está em Mogi onde?

Prof. Jenner: Lá tem um Instituto particular de Nefrologia.

Sebastião: Ah! Certo.

Prof. Jenner: E eu sou consultor científico do Instituto

Sebastião: Qual é o melhor momento que a nefrologia já viveu na visão do senhor, no conceito do senhor?

Prof. Jenner: Eu acho que nós sempre estivemos bem, quer dizer, eu não sei se os nefrologistas ficaram sempre bem né? Mas eu, por exemplo, sempre estive bem. Atualmente o pessoal que faz diálise está sendo mal remunerado, está havendo sempre atrasos nos repasses. Os nefrologistas, lutam com dificuldade porque têm que manter o serviço funcionando cada vez com maiores exigências, exigências cada vez maiores. O serviço que nos trabalhamos em Mogi, teve que fazer uma entrada só pra doentes, uma entrada só para carros, tiveram de fazer umas divisões…

Sebastião: Estão sempre inventando…

Prof. Jenner: É, cada ano inventa-se uma novidade, para isso então encarece muito o serviço e não há retribuição, quer dizer, cada vez o dinheiro fica mais curto.

Sebastião: Fica mais curto.

Prof. Jenner: É.

Sebastião: Mas eu falo do ponto de vista da Sociedade Brasileira de Nefrologia, o seu auge técnico, científico…

Prof. Jenner: Sempre teve. Por exemplo: eu estive no 3° Congresso Internacional da Nefrologia, em Washington, da Sociedade Internacional de Nefrologia, o nosso presidente naquela ocasião era o Heonir Rocha. O Heonir Rocha é uma pessoa brilhante, que conheci quando era residente no Hospital das Clínicas e eu era residente do Hospital das Clínicas

Sebastião: O Prof. Heonir faleceu há poucos dias…

Prof. Jenner: Ah! Eu não sabia! Aliás, no último Congresso, ele estava muito doente, fui falar com ele, quase não me reconheceu…Mas eu tinha trabalhado com o Prof. Zerbini por 3 meses, e lá nós tínhamos tido um caso de sarcoidose, que só foi descoberto graças a uma laparatomia com retirada de um gânglio através de toracotomia, então eu apresentei o caso que so eu conhecia nessa reunião e a platéia estava cheia, ninguém falou nada, o Dr. Heonir estava sentado na última fila, ele se levantou e falou se podia dar a sua opinião. Eu falei: “pode, à vontade”, então ele levantou e deu uma ótima aula de sarcoidose e fez o diagnóstico e provou porque só podia ser sarcoidose. Então foi aí que eu aprendi a conhecê-lo. Uns meses depois, ele foi para os Estados Unidos e ficou estagiando lá, e quando nós estivemos em 1966 em Washington, no Congresso Internacional, o Prof. Heonir era o presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, então de repente chega uma turma de americanos para convidá-lo para fazer uma palestra na universidade deles, quando acabasse o Congresso, davam passagem, tudo pra ele ir fazer a palestra lá na universidade deles, você vê como é, né? Há pouco tempo, há uns anos atrás, esse não é bem nefrologista, mas pelo menos está ligado a nós, que é o Prof. Krieger.

Sebastião: Eduardo Krieger.

Prof. Jenner: É.

Sebastião: Entrevistamos também.

Prof. Jenner: O Prof. Krieger também estava nos Estados Unidos e, aqueles anúncios, de quando ia haver palestra, o Prof. Krieger e tal na faculdade. Atualmente, nós temos, depois daquela ocasião o Prof. Israel era um dos editores da revista Nephron, depois que a revista foi para os Estados Unidos ele saiu. Atualmente o Prof. Nestor, o Riella, e agora o Burdmam, inclusive o Burdmam assumiu a Sociedade Americana de Nefrologia (NR: Sociedade Latino-Americana) e o Nestor que atualmente é sub-reitor…

Sebastião: Pró-reitor.

Prof. Jenner: De forma que eu estou sempre contente com a nossa sociedade do ponto de vista científico.

Sebastião: E professor nessa entrevista o senhor citou a professora Helga, pelo que contei, pelo menos umas 200 vezes (risos), eu queria agora tocar nesse assunto….

Prof. Jenner: Pois não.

Sebastião: Eu queria saber como é que foi isso. Foi assim… amor à primeira vista?

Prof. Jenner: Não, eu entrei no colégio…

Sebastião: Cuidado, ela vai ler depois… (risos)

Prof. Jenner: Eu entrei no colégio e no 1° ano do colégio eu fiquei num grupo só de meninos

Sebastião: Certo

Prof. Jenner: E a Helga ficou num grupo misto, numa outra sala. Então eu não a conhecia, tinha um primo que estava junto comigo, entrou junto comigo na escola e ele conhecia ela mas eu não a conhecia. No 2° ano, como a nossa turma era muito rebelde, a diretoria da escola resolveu fazer uma mudança, então pegou os alunos bem comportados e colocou junto com as meninas, não sei se já tinha meninos antes, se já tinha algum menino antes

Prof. Sebastião: Certo

Prof. Jenner: Então eu fui ficar na classe dela do 2° ano em diante.

Sebastião: O senhor era do grupo bem comportado?

Prof. Jenner: Era do grupo bem comportado. Nós furávamos todas as greves, greve nós estávamos contra (risos). Eu e mais 2 colegas.

Sebastião: Ah é?

Prof. Jenner: Nós éramos contra todas greves.

Sebastião: Certo. Faziam greve, o senhor furava.

Prof. Jenner: É, isso porque meu pai achava que greve era bobagem, ele tinha as idéias dele então eu furava a greve e esse colega Oswaldo Cruz que infelizmente já faleceu e um outro chamado Adilson Limas que eu acho que virou engenheiro, nunca mais eu vi depois da escola, furávamos todas greves, então assim nós fomos transferidos para o grupo das meninas, nós três (riso) e aí então que eu fiquei conhecendo a Helga.

Sebastião: O senhor achou bom ou ruim essa transferência?

Prof. Jenner: Lógico que eu achei bom, primeiro porque havia mais ordem, eu gosto de coisas em ordem e segundo porque as meninas eram mais, divertidas.

Sebastião: Na sala do senhor só 3 meninos e o restante meninas?

Prof. Jenner: É, além de nós – os que fomos transferidos, tinham uns 2 ou 3 rapazes só.

Sebastião: Correto

Prof. Jenner: Bom, e lá então no começo eu era um dos primeiros alunos da classe, pois tenho muita eficiência em aritmética e tirava nota 10 em matemática com muita facilidade.

Sebastião: Certo

Prof. Jenner: Quando entrei lá, a Helga também era ótima em matemática. Então, nós tínhamos uma rivalidade criamos uma certa animosidade.

Sebastião: Que idade que vocês tinham?

Prof. Jenner: Ah, 15, 16, 17 por aí.

Sebastião: Um chegou a ter antipatia do outro? (provocando)

Prof. Jenner: Não, não, não, não. Depois, no 3° ano, nós fomos fazer o cursinho pra faculdade de medicina e daí nós sentávamos juntos e foi aí que nós ficamos namorando, nós começamos a namorar do 3° ano em diante.

Sebastião: Do 3° ano em diante, quer dizer que entraram juntos na faculdade?

Prof. Jenner: Entramos juntos na faculdade, já contei isso pro senhor, ela foi 2° lugar e eu 40°. Começamos a namorar no colégio, no cursinho

Sebastião: No cursinho

Prof. Jenner: Cursinho noturno

Sebastião: E estudavam juntos?

Prof. Jenner: Não, não, não, porque ela morava na casa dela, no Cambuci e eu morava em pensões mais perto da cidade.

Sebastião: E ela é paulistana?

Prof. Jenner: É, ela nasceu em São Paulo.

Sebastião: o senhor namorou os 6 anos de medicina?

Prof. Jenner: Sim, os 6 anos de medicina.

Sebastião: E casou quando?

Prof. Jenner: Eu queria casar antes, mas ela sempre adiava, adiava, adiava porque ela tem alguns medos (riso) e nós casamos em 57.

Sebastião: Já formados?

Prof. Jenner: Já formados. Formamos em 53, casamos em 57.

Sebastião: Ah certo. E comemoram este ano, quantos anos de casados?

Prof. Jenner: Pois é, 49. O ano que vem 50
.
Sebastião: O senhor tem filhos?

Prof. Jenner: Tenho um casal só. O rapaz chama Jenner José Cruz, ele tem 40, vai fazer 41 esse ano. A menina é Maria Paula Borges Cruz.

Sebastião: São médicos?

Prof. Jenner: Não, ele é engenheiro e ela é professora de geografia, e ela é 3 anos mais moça do que ele.

Sebastião: E estão aqui em São Paulo?

Prof. Jenner: Não, ela está em São Paulo. Ele está em São José dos Campos. Ele formou-se pelo ITA em engenharia aeronáutica e permaneceu lá, ficou lá em São José.

Sebastião: E o senhor já tem netos, professor?

Prof. Jenner: A minha filha tem um casal também.

Sebastião: E o filho?

Prof. Jenner: Não tem filhos. Ele está casado mas não tem filhos. Hoje a minha filha e os meus netos estiveram aqui.

Sebastião: De manhã cedo?

Prof. Jenner: É. Vieram almoçar aqui conosco e nesse fim de semana nós vamos passar o fim de semana com eles lá em São José dos Campos.

Sebastião: e no Natal todo mundo se reúne e tal.

Prof. Jenner: É, sim, nós reunimos na casa da minha irmã, a minha irmã é que faz a festa, ela tem 4 filhas e ela faz a festa com todo mundo.

Sebastião: O professor voltando ao namoro com a professora Helga vocês nunca brigaram, quando namorados?

Prof. Jenner: Não, não, briga de verdade não, sempre tem algumas discussõezinhas (risos). Eu acho que casar é uma coisa muito boa, sou francamente favorável ao casamento e acho que qualquer outro tipo de relacionamento não dá certo, não traz felicidade, não traz a paz, não é coisa boa.

Sebastião: Como o senhor se situa, por exemplo em relação ao aborto?

Prof. Jenner: Abortar é um crime. Então é uma situação muito delicada porque aparentemente existem casos e casos, mas liberar o aborto eu acho bobagem, não, não, se eu fosse autoridade eu não liberaria o aborto.

Sebastião: Consumo de droga, o que que o senhor pensa?

Prof. Jenner: Sou totalmente contra, quem prova droga é uma pessoa completamente revoltada porque se ele fosse uma pessoa que obedecesse o que os mais velhos falam, que drogar faz mal, ele não provaria. Não sei se o senhor sabe, existem pessoas com sensibilidade a certas drogas, por ex. tem pessoas que tem sensibilidade a álcool, então essas pessoas, as vezes uma pessoa que não bebeu a vida toda, bebeu a primeira vez quando tinha mais de 40 anos de idade e virou alcoólatra por que? Porque ela era sensível ao álcool. Essa porcentagem de pessoas sensíveis ao álcool, é cerca de 10%, então 10% da população é sensível ao álcool. Eu, felizmente, não sou sensível, mas eu tenho parentes que são sensíveis ao álcool. Já a cocaína diz que é 30%, a heroína diz que é 70%, quer dizer, o sujeito que vai experimentar a heroína ele está arriscado a ser viciado em heroína e pra que? Quer dizer, qual é a prioridade, não tem prioridade nenhuma. Eu também sou uma pessoa que nunca fumou. O meu pai fumava e parou já com idade mais avançada, mas eu nunca fumei. Quando criança, logicamente, dei umas fumadinhas e achei que fazia mal pra mim e não fumei mais, acho que nunca fumei um maço inteiro em toda a minha vida.

Sebastião: O senhor é Fernando Henrique ou Lula?

Prof. Jenner: Não, Lula não, eu sou totalmente anti-comunista, eu fiz a marcha, aquela marcha que deu a revolução

Sebastião: Ah, a marcha, como é que era o nome?

Prof. Jenner: Esqueci como é que era o nome, (NR: Marcha com Deus e A família pela liberdade, em São Paulo) …

Sebastião: Em 64

Prof. Jenner: É isso. Nós fizemos a marcha como o Adhemar de Barros em cima andando de helicóptero, e a Dona Leonor, sua esposa e aquele padre (NR: Calazans), e outras senhoras, estavam na frente da marcha, nós estávamos no meio da passeata.

Sebastião: O senhor estava na passeata?

Prof. Jenner: Estava na passeata, o tempo todo.

Sebastião: O senhor e a professora Helga?

Prof. Jenner: Isso, isso.

Sebastião: O senhor doou o ouro pelo bem do Brasil?

Prof. Jenner: O meu pai doou o ouro e nós doamos também e doamos na de 32 também.

Sebastião: E na época o senhor tinha convicção de que ia virar o que virou?

Prof. Jenner: Não, não. Eu acho que a revolução não foi melhor, logicamente teve alguns presidente não tão brilhantes, mas não foi melhor porque os opositores não deixaram! Os opositores queriam, uma mensagem que tem até hoje, pois o Lula até hoje é amigo do Fidel Castro que é um assassino, que é um sujeito que, eu sou contra, quer dizer, ele pode ter feito alguma coisa boa pra Cuba mas ele é um ditador, quer dizer, eles eram contra a revolução porque a revolução virou uma ditadura mas são a favor de Cuba que também é uma ditadura. Eles eram a favor da Rússia que também era uma ditadura naquela ocasião, na realidade, o espírito de doar as coisas está errado, esse espírito que o Lula defende de doar dinheiro, de doar coisas está errado, nós precisamos ensinar o sujeito a pescar e não dar o peixe.
Sebastião: Entendi.

Prof. Jenner: Quer dizer, a política está errada, mas eu tenho que reconhecer que a política econômica do Brasil está muito boa. Hoje mesmo o jornal conta que aquele risco está em 252.

Sebastião: O risco Brasil.

Prof. Jenner: É, o risco Brasil está caindo cada vez mais, o dólar está caindo, e o Brasil está pagando as dívidas externas e já pagou várias e a única coisa que cresceu foi a dívida interna. Quanto ao roubo, infelizmente, eu acho que todo político de carreira não é santo, senão não seria político, acredito que o sujeito que é político por um mandato ainda pode ser santo, mas aquele que fica na política não é santo, então eu não morro de amores por nenhum deles, mas eu sou obrigado a votar contra o Lula, que eu sou contra.

Sebastião: O senhor votou no Serra?

Prof. Jenner: Lógico, votei no Serra, apesar de também não gostar muito porque o Serra foi um homem contra a revolução também e também tem idéias erradas? Agora em todo caso votei no Serra e quando eu era criança meu pai votava na UDN, votei na UDN e assim foi indo, sempre ficando do lado, o único que admirei foi o Dr. Carlos Lacerda, foi o homem que admirei na política.

Sebastião: E o Juscelino?

Prof. Jenner: Também, também.

Sebastião: Gostou?

Prof. Jenner: Adorei o Juscelino. Juscelino foi pra mim o homem que fez o Brasil ficar gente, começar a ficar gente? Nós inclusive, não sei se você sabe, quando ele era presidente, os médicos de São Paulo fizeram um jantar pra ele se não me engano no Pinheiros, eu estive nesse jantar.

Sebastião: Ah é, quando isso?

Prof. Jenner: Foi na casa de 1960 e poucos? Eu também estive nesse jantar e ele muito simpático, cumprimentou todo mundo, é um homem maravilhoso e como todo bom político, também parece que não era muito santo em questão de dinheiro mas o que ele roubou, quer dizer, é uma ninharia, em relação aos que os outros roubam hoje em dia.

Sebastião: E professor o senhor acha que tem espaço pra regime militar hoje?

Prof. Jenner: Não, não, eu acho que não. Eu acho que nós tínhamos naquela ocasião. Por enquanto não há motivo, apesar de que o movimento sem terra eu acho um absurdo, quer dizer, outra coisa que eu acho absurdo é quando nós vemos aí os índios que aparecem, então o senhor vê índios, uma tribo de índios, onde se vê que realmente não são índios. Quando aparece uma tribo de índios onde eles tem barba, bigode, índio não tem pelo no rosto, não sei se o senhor sabe.

Sebastião: Sei.

Prof. Jenner: Então geneticamente eles não tem pelo no rosto e nem no peito, então aqueles todos de barba e bigode, eu não sei se eles vivem realmente como índios, mas estão lá aproveitando as benesses que os índios estão recebendo e isso também é um erro, um abuso. Outro abuso também é o Movimento dos Sem Terra, um abuso tremendo e realmente eu não sei como resolver o problema do pobre! Eu por exemplo vou pra Mogi de madrugada e atravesso o Anhangabaú lá pelas 6 horas da manhã, atravesso ali pra pegar o ônibus pra Mogi e a esta hora já está cheio de crianças carentes. Com a Marta Suplicy aumentou muito o número mas agora melhorou um pouquinho. A gente vê crianças de madrugada com chuva, pedindo esmola e eles só não assaltam porque tem guarda. Tem muitas pessoas, como nem eu – honestas, andando por lá. Eles não tem coragem de assaltar a gente, são crianças, mas pedem dinheiro ostensivamente. Eu acho que está errado esse negócio de dizer que o governo devia dar. Eu não sei se o senhor sabe, quando eu era criança em Mogi das Cruzes, havia os pobres na rua, havia os mendigos, mas havia muitas sociedades beneficentes, havia algum lugar onde os velhos podiam ir? O meu pai fez um lar escola para as crianças abandonadas. Com tudo isto, existia um grande auxílio para a criança não ficar na rua e os pobres e idosos. Lembro, não sei se li no jornal, que nós temos 3 mil crianças na rua só na cidade de São Paulo, porque não tiram da rua? Eu sei que vão ficar bravos, rebeldes, eles não vão aceitar, mas tem que fazer esses lares escolas por exemplo. As leis acabam protegendo eles. Acho um absurdo não ser corrigido, isso nenhum político fez até hoje, e ao contrário, o senhor vê que nos Estados Unidos existe pobre na rua, na França existe pobre na rua, quer dizer, todo lugar existe pobre na rua, quer dizer, eles não resolveram o problema em nenhum lugar do mundo.

Sebastião: Nem aqui e nem lá

Prof. Jenner: Agora nesses lugares autoritários como em Cuba, segundo me consta, tem. No tempo do Hitler não existiam pobres nas ruas da Alemanha, ou seja, quando há uma ditadura de verdade eles não têm esse negócio de lei protegê-los.

Sebastião: Entendi. E professor como é seu dia a dia? O senhor levanta a que horas?

Prof. Jenner: Ah, eu levanto cedo.

Sebastião: A que horas?

Prof. Jenner: Quando eu vou pra Mogi eu levanto 4:50 h.

Sebastião: Como é que o senhor dá conta?

Prof. Jenner: Nos dias que eu não vou pra Mogi eu levanto 5:50 h.

Sebastião: E como é que o senhor vai pra Mogi, o senhor vai dirigindo?

Prof. Jenner: Não, não, eu não dirijo por causa da vista.

Sebastião: Como é que o senhor faz?

Prof. Jenner: Eu tomo o ônibus aqui na Rebouças e vou até o Anhangabaú, no Anhangabaú eu pego o Metrô e vou até a rodoviária.

Sebastião: Essa é uma rotina e isso dá algum medo no senhor?

Prof. Jenner: Não, não, não.

Sebastião: Agora com o horário de verão, ta muito escuro.

Prof. Jenner: Não, não, não, aqui apesar de ter ladrões, aqui não têm assaltantes, pelo menos, de forma que uma parte, você encontra poucas pessoas na rua, em geral as pessoas estão trabalhando.

Sebastião: E aí o senhor chega lá em Mogi e vai direto pro serviço, para o Instituto e fica o dia todo?

Prof. Jenner: Não, eu fico em geral das quartas só até o meio dia e nas quintas eu fico até 2 horas da tarde.

Sebastião: O senhor tem consultório aqui em São Paulo?

Prof. Jenner: Não, não, não. Por causa da vista fechei, depois nunca mais abri.

Sebastião: O senhor está aposentado e o senhor vive exclusivamente da aposentadoria?

Prof. Jenner: Não, na realidade eu tenho 3 aposentadorias.

Sebastião: Então o senhor está quase chegando no Fernando Henrique? (risos) ele tem 5.

Prof. Jenner: E, além disso, eu tenho também o vencimento lá de Mogi e tenho outros vencimentos, eu sou uma pessoa que sempre ganho mais do que eu gasto de forma que cada vez eu tenho mais dinheiro.

Sebastião: O senhor é pão-duro ou não?

Prof. Jenner: Não, não, já fui pão-duro.

Sebastião: Já foi?

Prof. Jenner: Já.

Sebastião: Corre uma onda que o senhor ainda é pão-duro.

Prof. Jenner: Não, não, não, agora com o gasto que a gente tem mensal, deixei de ser pão-duro há muito tempo.

Sebastião: O senhor está sozinho agora com a Professora Helga aqui nessa casa?

Prof. Jenner: Nessa casa só nós dois.

Sebastião: Só vocês dois?

Prof. Jenner: Só nós dois.

Sebastião: Quer dizer, os filhos já foram

Prof. Jenner: Já

Sebastião: Vocês estão vivendo sozinhos há quanto tempo?

Prof. Jenner: Não fazem 10 anos ainda, acho.

Sebastião: E sente falta da meninada ou não?

Prof. Jenner: Não, porque os netos vivem aqui

Sebastião: O dia inteiro?

Prof. Jenner: Não, não, não o dia inteiro, mas em geral nós acostumamos a pegar na escola na hora do almoço, eles almoçam aqui, depois eles vão com a mãe, que a mãe trabalha de manhã.

Sebastião: Porque nos congressos o senhor e a professora Helga sentam sempre na frente, na primeira fila

Prof. Jenner: Não, porque nós somos míopes (risos). Míope senta na frente, se a gente sofresse de hipermetropia sentaria lá atrás.

Sebastião: Mas nós não sabíamos da história, a gente achava que era uma maneira de provar que “quem manda somos nós!” (risos).

Prof. Jenner: Então vamos tomar agora um whiskizinho, um guaraná, uma cerveja?

Sebastião: Não, eu tenho um dia comprido aí pela frente

Prof. Jenner: O álcool em dose pequena não pesa, para quem não é sensível, não tem problema.

Sebastião: Mas eu sou (risos). Professor então muito obrigado ao senhor

Prof. Jenner: De nada.

Sebastião: Eu acho que essa é uma contribuição importante que o senhor deu com seu depoimento.

Prof. Jenner: Ora, imagina! Muito obrigado!

+www