Comentários do Comitê Diálise Peritoneal SBN sobre Nova diretriz de Recomendações de Práticas Clínicas para Prescrição de Diálise Peritoneal de Alta Qualidade Objetivo-direcionado – ISPD 2020

postado 27/02/2020

Comitê de Diálise Peritoneal

Viviane Calice Da Silva (Coordenadora)

Henrique Luiz Carrascossi

Mario Ernesto Rodrigues

Gina Elizabeth Moreno Gordon

Sergio Gardano Elias Bucharles

Alexandre Silvestre Cabral

Elias Marcos Silva Flato

Hugo Abensur


Aos 21 dias de Janeiro de 2020, a International Society of Peritoneal Dialysis lançou a nova diretriz de Recomendações de Práticas Clínicas para Prescrição de Diálise Peritoneal de Alta Qualidade Objetivo-direcionado, publicada no periódico Peritoneal Dialysis International, com o objetivo de atualizar as recomendações referentes às diretrizes publicadas em 2006 que estabeleciam os objetivos de adequação do tratamento dialítico baseados principalmente na remoção das toxinas urêmicas.

            Ao longo dos últimos anos, a observação da importância de outros fatores para a obtenção de melhores resultados em diálise peritoneal, que vão além da remoção de solutos, vem se tornando cada vez mais evidentes dentro da comunidade nefrológica. Esta premissa se refletiu no conteúdo das diretrizes recentemente publicadas, em que o enfoque principal passa a ser a necessidade da abordagem à decisão compartilhada entre equipe, paciente e cuidadores quanto aos objetivos do tratamento, sendo esta prática de extrema importância para o sucesso da terapia sob os aspectos que são mais importantes pela visão do paciente, visando sua maior qualidade de vida.

            As novas diretrizes ressaltam que os melhores desfechos em diálise peritoneal são o resultado de um tratamento individualizado, buscando suprir as necessidades de cada paciente, definindo os objetivos a serem alcançados numa esfera mais ampla e não somente em parâmetros técnicos de adequacidade. Propõe-se uma modificação na terminologia de “Diálise adequada” para “Diálise objetivo-dirigida”, definida pela tomada de decisão compartilhada entre pacientes e equipe de saúde assistente, para estabelecer objetivos de cuidado realistas que permitam ao paciente atingir seus objetivos de vida, minimizando os sintomas e a carga do tratamento, enquanto permitem ao médico prover uma terapia individualizada e de alta qualidade.

A prescrição deve levar em consideração os recursos locais do país, considerar o estilo de vida dos pacientes e seus familiares e considerar  o estado nutricional, as condições de volemia, bem como acompanhar atentamente a manutenção da diurese residual. Individualizar o tempo e freqüência do tratamento visando efetividade e qualidade de vida ao paciente deve ser a principal meta do programa. Para aqueles pacientes muito idosos, ou com doenças de prognóstico reservado, a prescrição de diálise reduzida poderá gerar o necessário bem-estar do paciente e deve ser fortemente considerada.

            Aspectos anteriormente não mensurados tornam-se fundamentais nas novas recomendações, tais como: mensuração da qualidade de vida, sintomas, experiências e objetivos individuais, sensação de bem estar e satisfação do paciente e cuidadores, assim como recomendações anteriores mantém-se sólidas como: monitoramento da função renal residual, avaliação da doença cardiovascular, status volêmico e nutricional, os parâmetros bioquímicos tradicionais e a depuração de moléculas menores. Todos estes parâmetros vão de encontro àqueles escolhidos pelos pacientes, cuidadores e prestadores de serviço pela iniciativa SONG-PD.

            Ainda é possível encontrar no documento, fluxograma para auxiliar os profissionais na prescrição de DP para um cuidado de alta qualidade, sugerindo aspectos importantes ao paciente a serem considerados. Intervenções potenciais a serem aplicadas relacionadas ou não a terapia e a avaliação dos aspectos anteriormente citados, visando verificar se os objetivos traçados na decisão compartilhada foram alcançados ou não e inclusive considerando a reavaliação quanto a continuidade ou não no paciente na terapia, visando os melhores desfechos.

Outro aspecto importante abordado nas novas diretrizes são orientações quanto ao oferecimento da terapia de DP considerada como não-padrão, como a diálise incremental, DP em pacientes frágeis ou paliativos e DP em situações especiais como crianças e em países de baixa e médio-baixa renda, situação de extrema importância para os profissionais que trabalham como a modalidade mundialmente.

Em resumo, as novas diretrizes contemplam uma visão mais ampla quanto ao cuidado do paciente em diálise peritoneal, trazendo este ainda mais para o centro da atenção ao cuidado valorizando aspectos individuais anteriormente não considerados e que são de extrema importância para o sucesso do tratamento e aderência a terapia. Nosso objetivo maior como médicos nefrologistas é o bem estar geral do paciente, e para isso precisamos levar em conta aspectos da individualidade destes, não só perante a necessidade da remoção de toxinas, como quanto suas necessidades, objetivos e expectativas pessoais, visando maximizar a qualidade de vida para estes. Vale sem sombra de dúvidas a leitura do texto na íntegra, a qual disponibilizamos no link abaixo.

International Society for Peritoneal Dialysis practice recommendations: Prescribing high-quality goal-directed peritoneal dialysis

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