Confira o artigo redigido pelo Dr. José A. Moura Neto para revista Visão Hospitalar, sobre sustentabilidade e diálise

postado 28/10/2019

Autor: José A. Moura Neto. 


Título: Sustentabilidade na Saúde: Um Olhar para Diálise. 


Revista (onde artigo foi publicado): Revista Visão Hospitalar, 29ª edição. 


 


“Quando a última arvore for derrubada, o último peixe for pescado e o último rio for poluído, as pessoas perceberão que não podem comer dinheiro”. O famoso provérbio indígena nunca fez tanto sentido. A sustentabilidade e seus 3 Rs (reduzir, reciclar, reusar) têm sido uma tendência em muitos setores e já realidade em países desenvolvidos. Certamente, será uma questão de tempo para alcançar a área da Saúde no Brasil.


Na Saúde, a diálise merece atenção especial. O tratamento dialítico, ao mesmo tempo em que mantém a vida de milhares de pessoas, consome recursos e causa significativo impacto ambiental. Nos últimos anos, a diálise passou por inovações tecnológicas. Novos medicamentos adjuvantes, sistema de tratamento de água com maior segurança, máquinas e membranas mais modernas aumentaram a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes. No entanto, não houve grandes avanços na redução do impacto ambiental do setor.


Estima-se que 133.464 pessoas estejam em tratamento dialítico nos 786 centros de terapia renal substitutiva ativos no Brasil, sendo a grande maioria (92%) em hemodiálise. Para realização do procedimento, a geração de resíduos é expressiva e há elevado consumo de energia e água. Gasta-se por volta de 500 litros de agua em cada sessão de hemodiálise, se contabilizadas todas as etapas do processo. O paciente realiza, normalmente, 3 sessões por semana, com cerca de 4 horas de duração cada. Baseado no número total de pacientes, calcula-se um gasto de quase 10 bilhões de litros de água pela hemodiálise no país. Além disso, cada paciente em tratamento dialítico gera 323 kg de resíduos (plásticos, em sua maioria) por ano, o que significa algo em torno de 40 mil toneladas de resíduos gerados pela diálise somente no Brasil. A energia também é outro foco de preocupação. No mundo, um consumo anual de 2 bilhões de kWh é estimado pelo setor.


Centros de diálise país afora têm se movimentado nesse sentido. Algumas iniciativas visam reduzir o desperdício da água, através do seu reuso na rega de jardins, em descargas e na lavagem de áreas comuns. A busca por fontes de energia renováveis, como a solar e eólica, também são iniciativas desejáveis e já existem projetos em andamento para implantação de energia solar em diversos centros no país. Recentemente, a Sociedade Brasileira de Nefrologia demonstrou apoio para a diálise sustentável. No entanto, apesar de iniciativas pontuais e isoladas, o caminho ainda é longo e não se sabe em qual extensão os 3 Rs da sustentabilidade (reduzir, reciclar, reusar) podem ser aplicados a Saúde?


Exemplo desse paradigma é o debate intenso para a instituição da política de uso único dos dialisadores. Dentre os diversos insumos necessários para realização da sessão de hemodiálise, talvez o de maior peso seja o dialisador, também conhecido como “capilar”. É um cilindro plástico, composto uma membrana artificial fenestrada, onde ocorre a difusão das partículas e toxinas urêmicas do sangue do paciente para a solução de diálise. Atualmente, no Brasil, cada dialisador pode ser reprocessado e reutilizado no mesmo paciente por até 20 vezes. Caso o uso único seja instituído no país, o resíduo gerado por paciente será muito maior do que os já elevados valores atuais. A pressão da indústria que fabrica os dialisadores é grande e é provável que a política do uso único, já adotada em outros países, seja, em breve, uma norma também no Brasil. Outro exemplo é a telemedicina. Nos últimos meses, a regulamentação da telemedicina sofreu duras críticas de diversos setores, endossadas por entidades e sociedades médicas. Pouca, ou nenhuma, consideração foi dada ao positivo impacto ambiental causado pela diminuição dos deslocamentos e das viagens, com a consequente emissão reduzida de gases de efeito estufa.


O incentivo do Governo será importante para ajudar a promover as mudanças no setor em direção a práticas mais sustentáveis e menos danosas ao meio ambiente. A sociedade também tem um papel fundamental. Mas são os pacientes, que cada vez mais assumem o papel de “clientes”, que podem fazer a grande diferença. Não basta “apenas” exigir que seu centro de tratamento seja ecologicamente correto e responsável. Mais que isso; devem perceber valor no serviço prestado com práticas sustentáveis. Só assim, em um setor que se esforça para corresponder às expectativas de seus clientes, a sustentabilidade será um diferencial competitivo.


 


José A. Moura Neto –Mestre em Administração. Diretor Médico do Grupo CSB e Vice-Diretor do Departamento de Diálise da Sociedade Brasileira de Nefrologia

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