Diálise é má notícia?

postado 27/02/2020

por José A. Moura Neto

“Comitê Deus” representado em artigo publicado na Life Magazine em 1962. “They decide who lives, who dies”. Foto de Lawrence Schiller.



Você vai fazer diálise”. Para muitos, essa é uma das notícias mais temidas. Não são raros pacientes que afirmam que preferem morrer “a ir para a máquina”. Entretanto, sob uma perspectiva histórica, existe injustiça com essa modalidade terapêutica que salva milhões de pessoas. O estigma negativo da diálise pouco condiz com os resultados que o tratamento apresenta, capaz de manter pacientes com boa qualidade de vida por anos e, talvez, décadas.

A hemodiálise, como terapia renal substitutiva crônica, surgiu na década de 60 em Seattle, nos Estados Unidos. Apesar do começo rudimentar, especialmente quando comparado ao método hoje, apresentou logo de início a promessa de tratamento para uma doença antes letal. Com o maior desenvolvimento, veio o desafio de tornar essa terapia cara disponível para um maior número de pacientes. A premissa dos recursos escassos nos modelos econômicos também é uma realidade no sistema de saúde e, para escolher quem teria acesso ao tratamento, foi criado um Comitê em Seattle. Nos primeiros meses de atividade, o Comitê revisou 30 casos, tendo sido selecionados apenas 10 pacientes para diálise. Muitos pacientes faleceram com o acesso à terapia negado. Não tardou para que esse Comitê, constituído por membros do clero e outros setores da sociedade, tivesse seus métodos de escolha questionados. Por decidir quem vivia, e consequentemente quem morria, foi chamado de “Comitê Deus”.

Alguns anos depois, a economia de escala proporcionou redução dos custos e a diálise se tornou mais acessível. No Brasil, o tratamento é universal e custeado integralmente pelo Sistema Único de Saúde – o que não ocorre em outros países em desenvolvimento. A evolução tecnológica também foi grande, tornando o procedimento mais seguro e melhorando sobremaneira os desfechos dos pacientes, como qualidade de vida e sobrevida. Atualmente, o método é responsável por manter a vida de mais de três milhões de pessoas com doença renal crônica no mundo.

A doença renal crônica, esta sim, é má notícia. Envolve adaptação para um estilo de vida com disciplina e algumas restrições. Mas, a diálise não. Provavelmente, os pacientes que passaram pelo Comitê na década de 60 e foram selecionados não consideraram a diálise uma má notícia. Esse estigma não ajuda. Só atrapalha; amplifica o sofrimento dos pacientes renais e superestima o temor generalizado dos pacientes não-renais à terapia, o que inclusive pode dificultar o diagnóstico precoce e retardar o tratamento. Relembrar a história talvez ajude os pacientes a lidarem com o turbilhão de emoções da notícia com uma perspectiva um pouco mais otimista, o que, sem dúvida, tem impacto positivo no resultado da doença.

+www